0021-7557/08/84-02/99 Jornal de Pediatría
Copyright © 2008 by Sociedade Brasileira de Pediatría
Editorial
Putting co-sleeping into perspective
O co-leito em perspectiva
Peter S. Blair*
O co-leito inicia logo apóso nascimento e muitas vezesse estende pela infancia como parte das primeiras práticas de criagao dos filhos. Em termos evolutivos, o lactente humano é o primata mais imaturo neurologicamente ao nascereéo que se desenvolve mais lentamente; desse modo, o contato intenso e prolongado do lactente com a mae atua como mecanismo de protegao contra dificuldades fisiológicas e agres-soes ambientais. Dentre os beneficios associados ao contato próximo entre lactentes e seus cuidadores é possivel citar: maior estabilidade cardiorrespiratória e oxigenagao, diminuigao de episodios de
choro, melhor termorregulagao, aumento
da prevaléncia e duragao do aleitamento materno e melhorprodugao de leite1,2.Por outro lado, os beneficios do aleitamento materno estao sendo cada vez mais reco-nhecidos e ativamente promovidos pela Organizagao Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nagoes Unidas para a Infancia (UNICEF). O co-leito pode facilitar o aleitamento materno, e a promogao de uma prática pode levar á promogao da outra. No entanto, a cama dos pais nao é projetada levando em consideragao a seguranga do bebé, e o co-leito tem sido associado com mor-tes acidentais (raras, porém fatais) de bebés causadas por sufocagao e esmagamento. Estudos epidemiológicos mais recentes sobre a síndrome da morte súbita do lactente (SMSL) mostraram um crescimento proporcional dessas mortes no ambiente de co-leito3, o qual levou algumas autoridades, incluindo a American Academy of Pediatrics4, a desaconse-lharo compartilhamento da cama. O nivel incomum de critica e hostilidade5-8 gerado por essa recomendagao é prova da polémica atual que há sobre o tema, seja no escopo da SMSL ou de forma mais ampla, em relagao aos riscos potenciais e beneficios percebidos por pais e lactentes que compartilham a mesma cama. Como Santos et al.9 apontaram de forma perspicaz em sua investigagao sobre essa prática de cuidado infantil no Brasil, as vantagens e os riscos sao percebidos de acordo com os valores de uma determinada sociedade.
Em uma sociedade onde o co-leito é raro ou associado principalmente a grupos étnicos minoritários ou a familias de baixa renda, talvez seja mais fácil identificar tal prática como um fator de risco em si mesmo. A SMSL também é descrita como “morte no bergo”, porque esse é o ambiente em que muitos desses lactentes sao encontrados. No entanto, o “bergo”, como ambiente de sono do lactente, nunca foi tratado como um fator de risco em pesquisas sobre SMSL; em vez disso, grande atengao tem sido prestada ás circunstancias do bergo que podem oferecer risco ou protegao ao lactente. Por outro lado,
____________ o co-leito é percebido como um fator de
fisco, e poucos estudos levaram em conta as circunstancias especificas nas quaistais lactentes morrem, como, por exemplo, se a cama era, na verdade, um sofá, ou se os pais haviam consumido álcool em excesso ou estavam sob o efeito de drogas indutoras do sono. Tratada desse modo rudimentar, misturando eventos raros perigosos e claramente inapropriados com formas aceitas de cuidado materno-infantil, e atribuindo rótulos simplistas como “seguro” ou “perigoso” ao cuidado como um todo, há amplas evidéncias para sedesaconselhartal prática. Sea sociedade percebe que nao há beneficios no co-leito, entao talvez haja algum mérito nessa abordagem, afinal ninguém discute o fato de que o bergo ao lado da cama dos pais é o lugar mais seguro para o lactente dormir. Ao simplesmente desaconselhar o co-leito, no entanto, assume-se que os pais ouvirao tal conselho e tam-bém que eles tém uma escolha a fazer. A maioria dos lactentes geralmente acorda durante a noite, e a maioria precisa ser alimentada; ocasionalmente, as maes cairao no sono enquanto amamentam, e nesses casos, a cama dos pais é uma opgao muito mais segura do que uma poltrona ou sofá. Dizer ás maes que nao pratiquem o co-leito impossibilita o aconse-lhamento sobre como fazé-lo de modo seguro, ignora prefe-réncias culturais e reduz as opgoes de onde as maes podem amamentar os lactentes durante o sono.
Jornal de Pediatría -Vol. 84, N° 2, 2008
Co-leito em perspectiva – Blair PS
Em muitas sociedades, a prática do co-leito nao é rara. Na Inglaterra, quase metade dos neonatos compartilham por algum tempo a cama com seus pais; 1/5 dos lactentes sao levados regularmente á cama dos pais durante o primeiro ano de vida10. Em outros países da Europa, índices similares ou maiores de compartilhamento da cama foram relatados aos 3 meses de idade: Irlanda (21%), Alemanha (23%), Italia (24%), Escocia (25%), Austria (30%), Dinamarca (39%) e Suécia (65%)11. Mesmo em países onde a prática é inco-mum, como Holanda, Noruega e EUA, um aumento foi observado na última década na prevaléncia do compartilhamento da cama3, período em que as taxas de aleitamento materno também aumentaram. No Brasil, Santos et al. relataram que o co-leito é comum entre lactentes com 1 ano de idade (46%), especialmente entre maes mais jovens, com menor escolari-dade e com nível socioeconómico mais baixo9. Resultados similares foram relatados nos EUA e na Nova Zelandia, mas a percepgao de que o co-leito é, de alguma forma, uma prática indesejável de cuidado infantil, por estar relacionada a grupos mais carentes, nao é necessariamente correta. No Brasil, o aleitamento materno é comum entre os grupos mais pobres, e mais comum em grupos socioeconomicamente intermedi-ários do que naqueles com maior status, embora o aleita-mento seja visto como uma prática desejável, positiva tanto para a mae quanto para o lactente12. O uso de chupetas é comumente associado a grupos socioeconomicamente mais pobres, masé uma prática atualmente incentivada enquanto mecanismo potencial de protegao contra SMSL, ou pelo menos um indicador de que os pais parecem estar fazendo a coisa certa13. Pobreza nao necessariamente implica más práticas de cuidado, assim como a prática do co-leito nao é exclusiva de grupos populacionais mais pobres. Na Inglaterra, o co-leito ultrapassa fronteiras sociais10, assim como na Suécia14 eem diversas culturas nao-ocidentais.
Em certas culturas, o compartilhamento da cama é a prática padrao, e a prevaléncia de SMSL é alta. Estao incluídas nesse grupo as populagoes negras nos EUA e as populagoes aborígenes e Maori no Hemisfério Sul. No entanto, interes-santemente, há outras culturas nas quais o co-leito também é a prática padrao, porém as taxas de SMSL sao baixas, incluindo Japao e Hong Kong, as comunidades asiáticas e ban-gladeshianas no Reino Unido e as comunidades do Pacífico na Nova Zelandia3. Nao é o compartilhamento da cama que distingue tais comunidades, mas há outros fatores mediadores, tais como fumo materno (particularmente baixo no Japao e em Hong Kong11) e consumo de álcool pelos pais (alto entre as populagoes Maori e aborígenes15,16), que podem ser combinados ao co-leito e influenciar os índices de SMSL. Outro fator mediador pode ser o próprio ambiente do sono, como o futon japonés, por exemplo, um colchao firme e estreito colocado no chao, que é intrinsecamente diferente dos colchoes geralmente mais macios e elevados usados nas sociedades ocidentais.
O número de estudos epidemiológicos que investigam benefícios potenciais associados ás práticas de cuidado do lac-tente é muito menor do que os que focam em práticas possi-velmente ligadas a morbidade e mortalidade infantil. A interpretagao dos resultados, assim como a forma como as perguntas sao formuladas e as respostas delineadas, pode dificultar a compreensao e ser dependente da maneira como diferentes culturas véem tais práticas. Santos et al. mostra-ram que o despertar noturno infantil está associado ao co-leito9. Uma interpretagao é que a presenga de um adulto pode perturbar o sono do lactente, fazendo-o acordar; outra é que o co-leito é uma conseqüéncia de o lactente ficar acordando durante a noite – ou uma solugao, se preferirem. Uma terceira possibilidade sugerida pelos autores é que o despertar infantil é percebido de forma diferente pelas maes que pra-ticam co-leito, talvez como uma interagao mais positiva, associada á necessidade da amamentagao. Assim, embora episódios incessantes de despertar noturno possam ser descritos como um disturbio do sono, o despertar freqüente pode também ser descrito como um bebé faminto que a mae se alegra em amamentar. Elaborar perguntas que permitam ás maes articular essas diferengas talvez seja mais complexo do que idealizar fatores de risco brutos para estudos de morbidade.
Alguns ambientes de co-leito, especialmente entre lacten-tes, sao claramente perigosos, e os pais devem ser conscien-tizados sobre quais sao as circunstancias perigosas e como evitá-las. Os potenciais benefícios imediatos efuturos do com-partilhamento do leito por criangas e seus pais ainda preci-sam ser estudados. Para fazé-lo de forma adequada, é possível que todos nós tenhamos que abandonar nossos pró-prios preconceitos, determinados culturalmente, e olhar mais atentamente para as circunstancias específicas em que a prática do co-leito ocorre, a mudanga da tomada de decisao dos pais que determina essa prática com o passar do tempo e a experiéncia tanto daqueles que optam quanto daqueles que nao optam pelo co-leito.
Referencias
1. Anderson GC. Currentknowledgeaboutskin-to-skin (kangaroo) care for preterm infants. J Perinatol. 1991;11:216-26.
2. Ludington-Hoe SM, Hadeed AJ, Anderson GC. Physiological responses to skin-to-skin contact in hospitalized premature infants. J Perinatol. 1991;11:19-24.
3. Blair PS, Fleming P. Co-sleeping and infant death. In: David TJ, editor. Recent advances in Pediatrics 24. London: Royal Society of Medicine Press; 2007.
4. American Academy of Pediatrics, Task Force on Sudden Infant Death Syndrome. The changing concept of sudden infant death syndrome: diagnosticcoding shifts, controversies regarding the sleeping environment, and new variables to consider reducing the risk. Pediatrics. 2005;116:1245-55.
5. Gessner BD, Porter TJ. Bed sharing with unimpaired parents is not an important risk factor for sudden infant death syndrome. Pediatrics. 2006;117:990-1; author reply 994-6.
6. Eidelman AI, Gartner LM. Bed sharing with unimpaired parents is notan important risk factor for sudden infant death syndrome: to the editor. Pediatrics. 2006;117:991-2; author reply 994-6.
Disturbios respiratórios do sono – Bruni O
Jornal de Pediatria – Vol. 84, N° 2, 2008
7. Bartick M. Bed sharing with unimpaired parents is not an important risk factor for sudden infant death syndrome: to the editor. Pediatrics. 2006;117:992-3; authorreply 994-6.
8. Pelayo R, Owens J, Mindell J, Sheldon S. Bed sharing with unimpaired parents is not an important risk factor for sudden infant death syndrome: to the editor. Pediatrics. 2006;117:993; author reply 994-6.
9. Santos IS, Mota DM, Matijasevich A. Epidemiology of co-sleeping and nighttime waking at 12 months in a birth cohort. J Pediatr (Rio J). 2008;84(2):114-22
10. Blair PS & Ball HL. The prevalence and characteristics associated
with parent-infant bed-sharing in England. Arch Dis Child. 2004;
89:1106-10.
11. Nelson EA, Taylor BJ. International Child Care Practices Study: infant sleeping environment. Early Hum Dev. 2001;62:43-55.
12. Araujo CL,Victora CG, Hallal PC, Gigante DP. Breastfeedingand overweight in childhood: evidence from the Pelotas 1993 birth cohort study. Int J Obes (Lond). 2006;30:500-6.
13. Mitchell EA, Blair PS, L’HoirMP. Should pacifiers be used to prevent sudden infant death syndrome? Pediatrics. 2006;117:1755-8.
14. Welles-Nystrom B. Co-sleeping as a window into Swedish culture: considerationsof genderand healthcare. Scand J Caring Sci. 2005;19:354-60.
15. Chikritzhs T, Brady M. Fact or fiction? A critique of the National Aboriginal and Torres Strait Islander Social Survey 2002. Drug Alcohol Rev. 2006;25:277-87.
16. Scragg R, Mitchell EA, Taylor BJ, StewartAW, Ford RP, Thompson JM, etal. Bed sharing, smoking, and alcohol in the sudden infant death syndrome. New Zealand Cot Death Study Group. BMJ. 1993;307:1312-8.
Correspondencia: Peter Blair
FSID Research Unit, Level D Southwell St., St. Michaels Hospital BS2 8EG – Bristol – UK Tel.: +44 (117) 928.5145 Fax: +44 (117) 928.5154 E-mail: p.s.blair@bris.ac.uk
Sleep-disordered breathing in children: time to wake up!
Disturbios respiratórios do sono em changas: precisamos acordar para esse problema!
Oliviero Bruni*
Nas últimas décadas, a literatura cientifica destacou a importancia de identificar e tratar os distúrbios respiratórios do sono (DRS) em criangas, já que estes podem levara sérias conseqüéncias neurocomportamentais, cardiovasculares, endócrinas e metabólicas.
A identificagao precisa da prevaléncia do ronco primário e da apnéia obstrutiva do sono (AOS) entre a populagao pediátrica é crucial por diferentes motivos: a) uma estimativa da magnitude do problema; b) inferéncia da relagao com outros problemas de saúde infantis emergentes, como a obesidade;
c) a possibilidade de prevenir conseqüéncias de longo prazo;
d) a identificagao dos subgrupos populacionais que poderiam estar em risco de desenvolver DRS; e e) uma orientagao para investigagoes futuras.
Uma das primeiras preocupagoes na pesquisa médica, quando se aborda um problema de saúde, é identificar claramente sua magnitude, que permite avaliar quantos pacientes seriam afetados e como as doengas poderiam ser prevenidas. Estas agoes se tornam cada vez mais importantes quando se trata de criangas e se estamos cientes de que poderiamos evitar diversas conseqüéncias tradicionais com o tratamento precoce dos problemas de respiragao do sono.
Dentro desta perspectiva, o bem-conduzido estudo de Petry et al.1 nesta edigao do Jornal de Pediatria é de grande importancia, poisele éo primeiro a nos dar uma imagem clara dos problemas de DRS em criangas em uma regiao brasileira. Este estudo transversal foi realizado na cidade de Uru-guaiana, RS, em uma amostra grande (cerca de 1.000 individuos) de escolares entre9e14anos, parte de um estudo epidemiológico maior sobre asma e alergias. Os pais de 27,6% das criangas relataram ronco habitual (RH), enquanto 0,8% relataram apnéia, 15,5% descreveram respiragao oral (RO) diurna e 7,8% queixaram-se de sonoléncia diurna excessiva
(SDE).
Estes resultados sao parcialmente semelhantes e parcialmente divergentes daqueles encontrados na literatura:o RH
Escrito por chelorulz
Escrito por chelorulz
Escrito por chelorulz 
